segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sentar-se à janela

De repente me dei conta de como as pequenas coisas são importantes na vida:
Tinha 5 anos quando, pela primeira vez, entrei em um avião. A ansiedade de voar era enorme. Eu queria me sentar ao lado da janela de qualquer jeito, acompanhar o vôo desde o primeiro momento e sentir o avião correndo na pista cada vez mais rápido até a decolagem. Ao olhar pela janela via, sem palavras, o avião rompendo as nuvens, chegando ao céu azul. Tudo era novidade e fantasia.
Cresci, comecei a trabalhar. No meu trabalho, hoje, voar é uma necessidade constante. As reuniões em outras cidades e a correria me obrigam, às vezes, a estar em dois lugares num mesmo dia, quatro, cinco lugares numa mesma semana.
No início pedia sempre poltronas ao lado da janela, e, ainda com olhos de menino, fitava as nuvens, curtia a viagem, e nem me incomodava de esperar um pouco mais para sair do avião, pegar a bagagem, coisa e tal.
O tempo foi passando, a correria aumentando, e já não fazia questão de me sentar à janela, nem mesmo de ver as nuvens, o sol, as cidades abaixo, o mar ou qualquer paisagem que fosse. Perdi o encanto. Pensava somente em chegar e sair, me acomodar rápido e sair rápido. As poltronas do corredor começaram a ser mais interessantes. Mais fáceis para sair sem ter que esperar ninguém, sempre e sempre preocupado com a hora, com o compromisso, com quem me esperava, com tudo, menos com a viagem, com a paisagem, comigo mesmo.
Por um desses acasos do destino, estava eu louco para voltar de São Paulo numa tarde chuvosa, precisando chegar no Rio de Janeiro o mais rápido possível, meu cão sozinho em Niterói. O vôo estava lotado e o único lugar disponível era uma janela, na fileira 22. Fazer o quê? Concordei, peguei meu bilhete e fui para o embarque.
Embarquei, me acomodei na poltrona indicada: a janela, lá atrás. Janela que há um bom tempo eu não via, ou melhor, pela qual já não me preocupava em olhar. Vôo bastante atrasado...
E, assim que o avião decolou, lembrei-me da primeira vez que voara. Senti estranhamente aquela ansiedade, aquele frio na barriga. Olhava o avião rompendo as nuvens escuras até que, tendo passado pela chuva, apareceu o céu. Era de um azul tão lindo como jamais tinha visto. E também o sol, que brilhava como se tivesse acabado de nascer. Naquele instante, em que voltei a ser criança, percebi que estava deixando de viver um pouco a cada viagem em que desprezava aquela vista.
Pensei comigo mesmo: será que em relação às outras coisas da minha vida eu também não havia deixado de me sentar à janela, como, por exemplo, olhar pela janela das minhas amizades, das minhas relações, do meu trabalho e convívio pessoal?
Creio que aos poucos, e mesmo sem perceber, deixamos de olhar pela janela da nossa vida. A vida também é uma viagem e se não nos sentarmos à janela, perdemos o que há de melhor: as paisagens, que são nossos amores, alegrias, tristezas, enfim, tudo o que nos mantém vivos. Se viajarmos somente na poltrona do corredor, com pressa de chegar, sabe-se lá aonde, perderemos a oportunidade de apreciar as belezas que a viagem nos oferece. Ademais, pode ser que ao descer do avião da vida já não encontremos ninguém a nossa espera.
A aeronave da nossa existência voa célere e a duração da viagem não é anunciada pelo comandante. Ela pode acabar numa turbulência qualquer. Não sabemos quanto tempo ainda nos resta. Por essa razão, vale a pena sentar próximo da janela para não perder nenhum detalhe, perder a pressa. Afinal, a vida, a felicidade e a paz são caminhos e não destinos.

E não é que o vôo saiu atrasado 45 minutos e chegou só 5 depois do horário!
Deve ter sido vento a favor, só 40 passageiros... ou minha "nova" visão...



P.S.: em Porto, pra trabalhar, só vestido assim. E daí?

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